ERA UMA VEZ - por Percival Pretti - Vereador e Escritor
- TG Treinamentos
- 18 de ago. de 2018
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Corria o ano de 1958, minha mãe deu a luz ao seu quinto filho no Distrito de Sagres, cidade de Osvaldo Cruz-SP. Nasci forte e robusto, com uma pele extremamente branca e por ter as pernas grossas, brincavam as vizinhas dizendo que pareciam duas mandiocas sem cascas. Lá, minha família permaneceu por mais dois anos, até que a fama das terras do Estado Paraná falou mais alto e mudamo-nos para a cidade de Cruzeiro do Oeste.
Meu pai comprou um pequeno pedaço de terra em parceria com meu avô, lugar onde minha família, constituída por seis pessoas, passou a viver, tornando-se completa com o nascimento, em 1966, da minha irmã Mirian. Era um lugar bucólico, cercado de vizinhos, composto de pequenas propriedades e com famílias que na sua grande maioria, como nós, vieram de outros estados, especialmente, do interior de São Paulo.
Vivíamos a seis quilômetros da cidade de Cruzeiro do Oeste que dava seus primeiros passos, tendo como fonte principal os cafezais que eram plantados freneticamente. Na verdade, muitos fizeram fortuna com a nobre planta (O até ocorrerem as grandes geadas e entrar em curva descendente.
Os tempos não eram os mais propícios para o enriquecimento. Quem vinha de outros Estados para o Paraná, se quisesse enriquecer, deveria embrenhar-se em locais distantes e comprar terras baratas ou usar a metodologia da grilagem de terras, que por ser ilegal, era sempre um risco. Como meu pai não era dado a essas coisas, permaneceu pessoa simples e boa, mas pobre.
Meus irmãos mais velhos, Sestilho e Ednei, casaram-se, mas meus pais e o restante da família continuavam a viver no mesmo lugar, sem muitas ambições e sem muitas expectativas. Meu pai comprou a propriedade em parceria com meu avô Arsênio, que após alguns anos, foi vendida e adquiriram outra bem próxima. Meu avô era um italiano da velha guarda que ficou morando em Osvaldo Cruz-SP. De vez em quando, vinha visitar nossa família e ver a propriedade. Interessante que sempre enviava uma cartinha pelo correio antes da viagem para que meu pai fosse esperá-lo em uma localidade próxima, chamada de Cruzeirinho.
No local, havia algumas casas, uma venda de secos e molhados, um campo de futebol, sendo ali o local onde o ônibus que fazia a linha de Maringá para Umuarama, parava para que meu avô pudesse chegar até nossa casa. Nunca me esquecerei da imagem de meu avô que ficou arraigada em meu subconsciente. Não tinha grande estatura, mas era gordinho. Usava sempre calças de linho cinza ou cáqui e quando vinha nos visitar, portava sempre uma pequena mala, inconfundível, onde trazia suas roupas. Ficávamos esperando a sua chegada e era prazeroso vê-lo descendo junto com meu pai pelo carreador rodeado de pés de café, conversando animadamente sobre o sítio, a plantação e o preço do produto. Na carta que escrevia antes da viagem, nunca faltou ao final uma recomendação. Ele pedia ao meu pai que determinasse aos "bambinos" para separar as palhas de milho finas para o preparo de seu inseparável cigarro de fumo de corda.
Quando meu avô se instalava em nossa casa, nós, que já havíamos preparado delicados feixes de palhas, todas cortadas em tamanho recomendado, corríamos até ele para fazer a entrega e receber gostosas balas Toffes, que grudavam nos dentes, mas eram deliciosas e escassas no sítio.
À tarde, sentávamos no terreirão de café e meu avô, sem camisa, iniciava um ritual interessante. Pegava um grosso rolo de fumo de corda, chamado de Arapiraca que trazia sempre consigo e com um belo canivete afiado, começava a cortar, delicadamente, a matéria prima tão almejada. Pegava a folha bege da palha de milho e distribuía carinhosamente o fumo, amarrava o cigarro pelo meio utilizando uma pequena tira que retirava da própria palha. Em seguida, dobrava a ponta do cigarro e ascendia com um isqueiro lindo de material reluzente e tocado a um combustível de cheiro gostoso, um fluido especial que dizia ser gasolina de avião, dando gostosas baforadas. Tinha-se a impressão de que era a essência dos deuses para ele. Interessante que a fumaça que saia dos lábios do meu avô tinha um cheiro especial. Eu que não fumava e não tinha a menor pretensão de ser fumante, fazia questão de sentar do lado, onde o vento levava a fumaça, só para sentir o suave cheiro do fumo. Enquanto isso, ele, extremamente amável, contava belas histórias para mim e para meus irmãos.
O tempo passou e logo recebemos a triste notícia de um grave AVC (Acidente Vascular Cerebral), que após algum tempo, tirou-o de nós com quase 1.00 anos de idade. Não pude mais ouvir meu pai lendo as cartinhas que ele enviava com letras bem escritas, desenhadas e com algumas expressões em italiano. Não mais a visão do carreador do sítio, não mais o suave perfume da fumaça. Mesmo, inconscientemente, ele ainda nos faz falta.
Papai adquiriu muitas propriedades, dentro da modalidade: vende aqui e compra ali. Até mudarmos para uma chácara bem próxima à cidade denominada Chácara da Piscina, onde havia um velho tanque feito de madeira com água que vinha de uma borbulhante mina. Cobrávamos um pequeno valor das pessoas que quisessem usufruir das águas límpidas e frias daquele lugar para um refrescante banho, dividindo o espaço com uma criação de peixe. Muitos alunos do Colégio Estadual, que ficava próximo, matavam aulas para irem banhar-se em nossa piscina, Todos os dias era uma verdadeira festa.
A tal mina que abastecia o tanque não sai de minha memória. Após uma cirurgia de apêndice suturada e de ter ficado doze dias em um hospital sem poder tomar água, o que mais eu ambicionava, quando chegasse à minha casa, era ir até aquela mina e com uma caneca de alumínio que sempre usava, poder me deliciar com a água pura que brotava da terra. Sinceramente, no hospital sonhei várias vezes com a água que nascia da mina que abastecia a pequena piscina e nossa casa.
Eu e meus irmãos estudávamos em escolas da cidade, andávamos de carrinho de tração animal, frequentávamos a Igreja Batista e uma das nossas grandes diversões naquele lugar era reproduzir, próximo ao pequeno riacho que corria nos fundos da chácara utilizando armas de brinquedo, grandes filmes que, às vezes, sequer tínhamos assistido, especialmente, os faroestes americanos com enredos contados por terceiros.
O tempo passou e meu pai resolveu mudar-se para a cidade. Trocou a pequena chácara em uma casa na zona urbana, que até hoje, ainda existe. A família passou a ter contato mais direto com a modernidade como, luz elétrica, geladeira e até televisão.
Não poderia deixar de relatar histórias ocorridas com minha família nos tempos em que passamos nos lugares citados. Entre tantas histórias de pescarias, capturas de pássaros, a fuga desesperada de uma pequena onça, situações acontecidas comigo e meus irmãos, tem uma que é especial. Na minha adolescência, uma data importante no ano, era sem dúvida as festas de Natal e Ano Novo, onde a figura do Papai Noel reinava soberana. Incrível, mas até os meus doze anos de idade eu ainda acreditava piamente que o bom velhinho existia. Mas o Natal era importante para nós por um simples fato: era o momento de desfrutar de um gostoso refrigerante, um frango recheado com azeitonas que mamãe fazia como ninguém. E por falar em azeitonas, devo confessar que meu pai, na semana que antecedia ao Natal, ia todos os anos, religiosamente, até a cidade e entre outras coisas, comprava uma lata de azeitonas, onde na estampa externa podia se ver um ramo de oliveira com belos frutos desenhados.
Ficávamos olhando por uma semana aquela lata especial na prateleira, próxima ao fogão de lenha e aguardávamos com ansiedade que minha mãe, na véspera do Natal, pudesse abri-la e dar a nós algumas azeitonas verdes e deliciosas que nunca passava de dois caroços cada um para não faltar no recheio.
Para mim, era o manjar dos deuses, talvez, por isso, ainda hoje, apesar das restrições médicas, devoro, se deixarem, um vidro inteiro.
Mas, voltando ao bom velhinho, tenho a dizer que uma das maiores decepções que tive naqueles anos, foi descobrir, através de meu pai, que Papai Noel não existia. Havia ocorrido uma grande geada no Paraná e os cafezais foram praticamente dizimados. A crise estava instalada nas pequenas propriedades e como fazíamos todos os anos, fui com meus irmãos, em uma tarde chuvosa que antecedia ao Natal, cortar grama para o cavalinho do Papai Noel. Meu pai conversava com um vizinho no terreiro de café e ao ver-nos portando facas e sacolas, gritou de onde estava: "Onde vocês estão indo"? Com alegria respondemos: "Buscar capim para o cavalinho do Papai Noel"!!!. Meu pai, dentro de sua simplicidade e sem rodeios, disse-nos: "Vocês vão perder tempo". E para nossa decepção, alegou que não teve tempo de ir à cidade naquele dia e não tinha comprado os doces e as lembranças que comumente escondia debaixo da cama para serem encontrados por nós na manhã do dia de Natal.
Descobri naquele momento que deixava de ser criança e passava a descobrir a realidade da vida, que aliás, tornava-se cada dia mais difícil. No fundo, meu pai acabava de nos apresentar as dificuldades que todos nós, mais cedo ou mais tarde, teríamos que enfrentar. A realidade apresentada por meu pai, naquela tarde chuvosa, na verdade, só nos fez crescer e amadurecer para enfrentarmos os embates que estavam por vir.
Mesmo morando na cidade, ainda assim continuei por um período a acompanhá-lo nas tarefas em um sítio de café que, curiosamente, estava localizado próximo onde morávamos, quando a família veio de São Paulo.
Entretanto, após nos mudarmos para a cidade, passei a ter vergonha de voltar para casa com aquela roupa simples, portando enxadas e outros apetrechos nas costas. Passei a ter vergonha também de comprar o pão doce que levávamos para o café da tarde, já que a marmita preparada por minha mãe estava em uma sacola disfarçada.
Escondia o rosto com um pano que levava para proteção contra o sol. Virava-me como podia, mas no fundo, era feliz por ajudar meu pai e minha família no sustento.
Meus pais viveram a plenitude de uma vida com Deus, sendo que uma das imagens que continua em minha cabeça é a do meu pai no centro da sala simples de minha casa, com a sua velha e surrada bíblia nas mãos, esperando os filhos chegarem da escola para lê-la e orar, todas as noites.
Os tempos agitados que vivemos não nos permitem mais fazermos, coletivamente isso, mas sou feliz pela existências de dois seres especiais que passaram pela minha vida e pela de meus irmãos. Espero, com certeza, encontrá-los nos braços de Deus, quando chegar aos céus. Os ensinamentos e a firmeza de uma fé inabalável foram imprescindíveis para aquilo que Deus colocaria em meu caminho: tantas provas, alegrias e dificuldades que enfrento até hoje. Ah! Se não fosse a esperança em Deus. Ah! Se não fossem os preceitos bíblicos. Ah! Se não fosse o exemplo de comunhão de meus pais. Com certeza, estaria, irremediavelmente, perdido.
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